Os sonetos completos de Anthero de Quental
Quental Antero de 1842-1891
Portuguese
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SONETOS
OS SONETOS COMPLETOS
DE
Anthero de Quental
publicados por
J. P. Oliveira Martins
PORTO
LIVRARIA PORTUENSE
DE
_LOPES & C.^a--EDITORES_
119, Rua do Almada, 123*
1886
PORTO
TYPOGRAPHIA OCCIDENTAL
Rua da Fabrica, 66
Escrevendo estas breves paginas á frente dos _Sonetos_ de Anthero de
Quental tenho a satisfação intima de cumprir o dever de tornar conhecida
do publico a figura talvez mais caracteristica do mundo litterario
portuguez, e decerto aquella sobre que a lenda mais tem trabalhado.
Estou certo, absolutamente certo, de que este livro, embora sem écco no
espirito vulgar que faz reputações e dá popularidade, ha-de encontrar um
acolhimento amoroso em todas as almas de eleição, e durar emquanto
houver corações afflictos, e emquanto se fallar a linguagem portugueza.
Procurarei, no que vou dizer, guardar para mim aquillo que ao publico
não interessa: a viva amisade, a estreita communhão de sentimentos, o
affecto quasi fraterno que ha perto de vinte annos nos une, ao poeta e
ao seu critico de hoje, fazendo da vida de ambos como que uma unica
alma, misturando invariavelmente as nossas breves alegrias, muitas vezes
as nossas lagrimas, sempre as nossas dores e os nossos enthusiasmos ou o
nosso desalento.
Discutindo em permanencia, discordando frequentemente, ralhando a miudo,
zangando-nos ás vezes e abraçando-nos sempre: assim tem decorrido para
nós perto de vinte annos. Mas o leitor é que nada tem que vêr com esses
casos particulares, nem com o abraço que trocámos no dia em que primeiro
nos conhecemos e que só terminará n'aquelle em que um de nós, ou ambos
nós, formos descançar para sempre sob meia duzia de pás de terra fria.
I
Eu não conheço phisionomia mais difficil de desenhar, porque nunca vi
natureza mais complexamente bem dotada. Se fosse possivel desdobrar um
homem, como quem desdobra os fios de um cabo, Anthero de Quental dava
_alma_ para uma familia inteira. É sabidamente um poeta na mais elevada
expressão da palavra; mas ao mesmo tempo é a intelligencia mais critica,
o instincto mais pratico, a sagacidade mais lucida, que eu conheço. É um
poeta que sente, mas é um raciocinio que pensa. Pensa o que sente; sente
o que pensa.
Inventa, e critíca. Depois, por um movimento reflexo da intelligencia,
dá corpo ao que criticou, e raciocina o que imaginou.--O seu
temperamento apresenta um contraste correlativo: é meigo como uma
creança, sensitivo como uma mulher nervosa, mas intermittentemente é
duro e violento.
É fraco, portanto? Não. A vontade, em obediencia á qual, e com esforço,
se faz colerico, fal-o tambem forte--d'esta força persistente,
raciocinada e na apparencia placida, como a superficie do mar em dias de
bonança. O Oceano, porém, é interiormente agitado pelo _gulf stream_
quente e invisível: tambem ás vezes a placidez extrema da sua face
encobre ondas de afflicção que sobem até aos olhos e rebentam em
lagrimas ardentes. Sabe chorar, como todo o homem digno da humanidade.
É d'estas crises que nasceram os seus versos, porque Anthero de Quental
não _faz_ versos á maneira dos litteratos: nascem-lhe, brotam-lhe da
alma como solluços e agonias. Mas, apezar d'isso, é requintado e
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