O Mysterio da Estrada de Cintra - Cartas ao Diário de Noticias terceira edição
Queiroz José Maria Eça de 1845-1900;Ortigão Ramalho 1836-1915
Portuguese
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O Mysterio da Estrada de Cintra
COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA
EÇA DE QUEIROZ E RAMALHO ORTIGÃO
O Mysterio da Estrada de Cintra
Cartas ao _Diario de Noticias_
Terceira Edição emendada e precedida d'um Prefacio
LISBOA
Livraria de Antonio Maria Pereira, Editor
50--RUA AUGUSTA--54
MDCCCXCIV
LISBOA
TYPOGRAPHIA E STEREOTYPIA MODERNA
11--Apostolos--1.^o
+PREFACIO DA 2^a EDIÇÃO+
CARTA AO EDITOR D'O _Mysterio da Estrada de Cintra_
Ha quatorze annos, n'uma noite de verão no Passeio Publico, em frente de
duas chavenas de café, penetrados pela tristeza da grande cidade que em
torno de nós cabeceava de somno ao som de um soluçante _pot-pourri_ dos
_Dois Foscaris_, deliberámos reagir sobre nós mesmos e acordar tudo aquilo
a berros, n'um romance tremendo, businado á baixa das alturas do _Diario
de Noticias_.
Para esse fim, sem plano, sem methodo, sem escola, sem documentos, sem
estylo, recolhidos á simples «torre de crystal da Imaginação», desfechámos
a improvisar este livro, um em Leiria, outro em Lisboa, cada um de nós com
com uma resma de papel, a sua alegria e a sua audacia.
Parece que Lisboa effectivamente despertou, pella sympathia ou pela
curiosidade, pois que tendo lido na larga tiragem do _Diario de Noticias_
o _Mysterio da Estrada de Cintra_, o comprou ainda n'uma edição em livro;
e hoje manda-nos V. as provas de uma terceira edição, perguntando-nos o
que pensamos da obra escripta n'esses velhos tempos, que recordamos com
saudade...
Havia já então terminado o feliz reinado do senhor D. João VI. Fallecera o
sympathico Garção, Tolentino o jocundo, e o sempre chorado Quita. Além do
Passeio Publico, já n'essa epoca evacuado como o resto do paiz pelas
tropas de Junot, encarregava-se tambem de fallar ás imaginações o sr.
Octave Feuillet. O nome de Flaubert não era familiar aos folhetinistas.
Ponson du Terrail trovejava no Sinai dos pequenos jornaes e das
bibliothecas economicas. O sr. Jules Claretie publicava um livro
intitulado... (ninguem hoje se lembra do titulo) do qual diziam
commovidamente os criticos:--_Eis ahi uma obra que ha de ficar!_... Nós,
emfim, eramos novos.
O que pensamos hoje do romance que escrevemos ha quatorze annos?...
Pensamos simplesmente--louvores a Deus!--que elle é execravel; e nenhum de
nós, quer como romancista, quer como critico, deseja, nem ao seu peor
inimigo, um livro egual. Porque n'elle ha um pouco de tudo quanto um
romancista lhe não deveria pôr e quasi tudo quanto um critico lhe deveria
tirar.
Poupemol-o--para o não aggravar fazendo-o em tres volumes--á enumeração de
todas as suas deformidades! Corramos um veu discreto sobre os seus
mascarados de diversas alturas, sobre os seus medicos mysteriosos, sobre
os seus louros capitães inglezes, sobre as suas condessas fataes, sobre os
seus tigres, sobre os seus elephantes, sobre os seus hiates em que se
arvoram, como pavilhões do ideal, lenços brancos de cambraia e renda,
sobre os seus sinistros copos d'opio, sobre os seus cadaveres elegantes,
sobre as suas _toilettes_ romanticas, sobre os seus cavallos esporeados
por cavalleiros de capas alvadias desapparecendo envoltos no pó das
phantasticas aventuras pella Porcalhota fóra!...
Todas estas cousas, aliás sympathicas, commoventes por vezes, sempre
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