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A Relíquia

Queiroz, José Maria Eça de, 1845-1900

Portuguese



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Below is a summary of A Relíquia


produced from images generously made available by National
Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)










A RELIQUIA




*A Reliquia*


Decidi compôr, nos vagares d'este verão, na minha quinta do _Mosteiro_
(antigo solar dos condes de Landoso) as memorias da minha Vida--que
n'este seculo, tão consumido pelas incertezas da Intelligencia e tão
angustiado pelos tormentos do Dinheiro, encerra, penso eu e pensa meu
cunhado Chrispim, uma lição lucida e forte.

Em 1875, nas vesperas de Santo Antonio, uma desillusão de incomparavel
amargura abalou o meu sêr: por esse tempo minha tia D. Patrocinio das
Neves mandou-me do Campo de Sant'Anna, onde moravamos, em romagem a
Jerusalem: dentro d'essas santas muralhas, n'um dia abrazado do mez de
Nizam, sendo Poncius Pilatus procurador da Judêa, Elius Lamma legado
imperial da Syria e J. Kaiapha Summo Pontifice testemunhei,
miraculosamente, escandalosos successos: depois voltei--e uma grande
mudança se fez nos meus bens e na minha moral.

São estes casos--espaçados e altos n'uma existencia de bacharel como, em
campo de herva ceifada, fortes e ramalhosos sobreiros cheios de sol e
murmurio--que quero traçar, com sobriedade e com sinceridade, emquanto
no meu telhado voam as andorinhas, e as moitas de cravos vermelhos
perfumam o meu pomar.

Esta jornada á terra do Egypto e á Palestina permanecerá sempre como a
gloria superior da minha carreira; e bem desejaria que d'ella ficasse
nas Lettras, para a Posteridade, um monumento airoso e macisso. Mas
hoje, escrevendo por motivos peculiarmente espirituaes, pretendi que as
paginas intimas em que a relembro se não assemelhassem a um _Guia
Pittoresco do Oriente_. Por isso (apesar das solicitações da vaidade)
supprimi n'este manuscripto succulentas, resplandecentes narrativas de
Ruinas e de Costumes...

De resto esse paiz do Evangelho, que tanto fascina a humanidade
sensivel, é bem menos interessante que o meu sêcco e paterno Alemtejo:
nem me parece que as terras favorecidas por uma presença Messianica
ganhem jámais em graça ou esplendor. Nunca me foi dado percorrer os
Lugares Santos da India em que o Budha viveu--arvoredos de Migadaia,
outeiros de Veluvana, ou esse dôce valle de Rajagria por onde se
alongavam os olhos adoraveis do Mestre perfeito quando um fogo rebentou
nos juncaes, e Elle ensinou, em singela parabola, como a Ignorancia é
uma fogueira que devora o homem--alimentada pelas enganosas sensações de
Vida que os sentidos recebem das enganosas apparencias do Mundo. Tambem
não visitei a caverna d'Hira, nem os devotos areaes entre Meca e Medina
que tantas vezes trilhou Mahomet, o Propheta Excellente, lento e
pensativo sobre o seu dromedario. Mas, desde as figueiras de Bethania
até ás aguas caladas de Galilêa, conheço bem os sitios onde habitou esse
outro Intermediario divino, cheio de enternecimento e de sonhos, a quem
chamamos Jesus-Nosso-Senhor:--e só n'elles achei bruteza, seccura,
sordidez, soledade e entulho.

Jerusalem é uma villa turca, com viellas andrajosas, acaçapada entre
muralhas côr de lôdo, e fedendo ao sol sob o badalar de sinos tristes.

O Jordão, fio d'agua barrento e pêco que se arrasta entre areaes, nem
póde ser comparado a esse claro e suave Lima que lá baixo, ao fundo do
_Mosteiro_, banha as raizes dos meus amieiros: e todavia vêde! estas
meigas aguas portuguezas não correram jámais entre os joelhos d'um
Messias, nem jámais as roçaram as azas dos anjos, armados e rutilantes,
trazendo do céo á terra as ameaças do Altissimo!

Entretanto como ha espiritos insaciaveis que, lendo d'uma jornada pelas
terras da Escriptura, anhelam conhecer desde o tamanho das pedras até ao
preço da cerveja--eu recommendo a obra copiosa e luminosa do meu
companheiro de romagem, o allemão Topsius, doutor pela Universidade de
Bonn e membro do _Instituto Imperial de Excavações Historicas_. São sete
volumes _in-quarto_, atochados, impressos em Leipzig, com este titulo
fino e profundo--Jerusalem Passeada e Commentada.

Em cada pagina d'esse solido Itinerario o douto Topsius falla de mim,
com admiração e com saudade. Denomina-me sempre o _illustre fidalgo
lusitano_; e a fidalguia do seu camarada, que elle faz remontar aos
Barcas, enche manifestamente o erudito plebeu de delicioso orgulho. Além
d'isso o esclarecido Topsius aproveita-me, através d'esses repletos
volumes, para pendurar ficticiamente, nos meus labios e no meu craneo,
dizeres e juizos ensopados de beata e babosa credulidade--que elle logo
rebate e derroca com sagacidade e facundia! Diz, por exemplo:--«Diante
de tal ruina, do tempo da Cruzada de Godofredo, o illustre fidalgo
lusitano pretendia que Nosso Senhor, indo um dia com a Santa
Veronica...»--E logo alastra a tremenda, turgida argumentação com que me
deliu. Como porém as arengas que me attribue não são inferiores em sabio
chorume e arrogancia theologica ás de Bossuet, eu não denunciei n'uma

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