Verdades amargas - estudo politico dedicado às classes que pensam, que possuem - e que trabalham
Nunes, Claúdio José
Portuguese
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VERDADES AMARGAS
ESTUDO POLITICO
DEDICADO ÁS CLASSES QUE PENSAM, QUE POSSUEM E QUE TRABALHAM
POR
CLAUDIO JOSÉ NUNES
LISBOA
TYPOGRAPHIA DE FRANCISCO XAVIER DE SOUSA & FILHO 26, Rua do Ferregial de
Baixo, 26
*1870*
AO LEITOR
O auctor d'estas linhas não pretende endireitar com ellas o mundo, nem
dar conselhos a quem lh'os não pede.
Como pertence, porém, a essa tribu de sonhadores que tem a simplicidade
de gastar alguns minutos no estudo das cousas da patria, e tantas vezes
te ouve ponderar--a ti mesmo, que tens agora este folheto nas mãos--o
que adiante acharás, julgou dever condensar em letra redonda a expressão
de teus patrioticos reparos.
Ignora elle, comtudo, se o pudor convencional te fará agora tapar os
olhos em publico na presença da verdade nua, que tão frequentemente
despes nas côrtes e na imprensa, na sala e na rua.
É natural que não.
Mas se esse facto se der; se a tua hypocrisia tomar geitos de castidade,
repara que, ferindo o auctor, cravarás o ferro em tua propria lingua.
Ha só uma differença. Tens dito mil vezes que o paiz está podre. Aqui
diz-se unicamente que o paiz apodrece.
Pódes, pois, á vontade hervar a setta da critica.
Outubro de 1870.
VERDADES AMARGAS
Ha na vida dos povos alguns momentos em que é honra e proveito o
trabalharem todos os cidadãos na redempção da patria commum.
O nosso paiz atravessa uma hora difficil.
De norte a sul, em todos os recantos d'este velho torrão portuguez, o
edificio social escaliça e range, como se houvesse caído sobre elle uma
d'essas biblicas maldições que imprimiam o cunho de uma irremissivel
fatalidade.
As forças vivas do paiz vão esmorecendo n'um deploravel abatimento.
Definha o commercio; retrae-se a industria; a agricultura vê seccar os
peitos uberrimos.
Sobre os factores da riqueza nacional anda uma athmosphera suffocadora.
A intelligencia annuvia-se; o capital adormece; o trabalho
espreguiça-se.
O melhor e maior de todos elles, a confiança publica, declina
rapidamente para um funestissimo occaso.
Porque?
Porque um povo não vive só do que palpa e do que vê. Transpõe-se o rio;
corta-se o monte; povoa-se o estalleiro; fertilisa-se o solo; mas se
todo o progresso material fôr automaticamente produzido, sem que o
illumine uma faisca d'esse espirito publico, que constitue a alma das
grandes nações, tarde ou cedo a ephemera florescencia murchará de
encontro ao mais ligeiro attricto.
E assim é.
Quiz Portugal acompanhar a Europa no caminho da civilisação. Poz a
estrada aonde era o barranco e o caminho de ferro aonde era a estrada.
Estimulou a producção pelo consummo e o consummo pela producção. Fez do
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