O cancioneiro portuguez da Vaticana
Braga, Teophilo, 1843-1924
Portuguese
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Below is a summary of O cancioneiro portuguez da Vaticana
THEOPHILO BRAGA.
O Cancioneiro portuguez da Vaticana
e suas relações com outros Cancioneiros dos seculos XIII e XIV.
(Zeitschrift für Romanische Philologie, 1877)
O apparecimento do Cancioneiro portuguez da Bibliotheca do Vaticano,
que encerra quasi toda a poesia lyrica do fim da edade media em
Portugal, veiu mais uma vez provar a superioridade da iniciativa
individual sobre a estabilidade inerte das instituições collectivas
que apenas apresentam o vigor do prestigio official; desde 1847 que a
Academia real das Sciencias de Lisboa deixava jazer no pó do archivo
de Roma este importante documento nacional, e foram sempre ficticios
os esforços para obter uma copia d'elle, que de ha muito devera ter
sido reproduzida no corpo dos _Scriptores_, que forma uma das partes
dos _Portugaliae Monumenta historica_. No emtanto, no estrangeiro o
interesse scientifico muitas vezes se havia occupado do passado
historico de Portugal, e foi a esta corrente que obedeceu o illustre
philologo romanista Ernesto Monaci coadjuvado pelo activo e
intelligente editor Max Niemeyer, restituindo a este paiz o texto
diplomatico do mais precioso dos seus documentos litterarios. Ao
terminar do modo mais consciensioso a sua empreza, escreve Monaci:
"voglia il cielo che tornato il libro in Portogallo, diventi presto
oggetto di studj novelli. È solo nella fonte delle tradizioni patrie
che lo spirito di una nazione si ringagliardisce." (Canz. port., p.
XVIII.) Infelizmente na litteratura portugueza ainda se não
comprehendeu esta verdade salutar, e por isso o talento desbarata-se
em architectar phantasmagorias de cerebros doentes ou em fazer
traducções de romances dissolutos. Acceitando a responsabilidade das
palavras do editor do Cancioneiro da Vaticana dirigidas a esta nação,
cabia primeiro do que a todos á Academia real das Sciencias de Lisboa
responder pela seguinte forma:
1°. Publicar o texto critico e litterario restituido sobre a lição
diplomatica em grande parte illegivel fóra de Portugal.
2°. Acompanhar esse texto com todos os dados bibliographicos de que se
possa alcançar noticia, para sobre elles basear a historia externa da
formação do Cancioneiro.
3°. Acompanhal-o de um bom glossario das palavras empregadas na dicção
provençalesca da poesia palaciana.
4°. Por ultimo organisar um vasto quadro da historia litteraria de
Portugal no periodo dos nossos trovadores, deduzido dos abundantes
factos historicos que fornece o Cancioneiro da Vaticana.
É para isto que existem as Academias nos paizes civilisados, que os
governos as subsidiam, e que os seus membros têm o fôro de sabios. Em
quanto a Academia real das Sciencias de Lisboa não cumpre este seu
dever, cumpre-nos dar uma noticia d'este Cancioneiro, longos seculos
perdido pelas bibliothecas estrangeiras.
N'este codice se encontram as nossas origens litterarias, e as
relações intimas que filiam a litteratura portugueza no grupo das
litteraturas romanicas da edade media da Europa; aqui se acham
representadas as duas correntes da inspiração popular e palaciana ou
erudita, bem como os costumes intimos de uma sociedade que nos é
desconhecida, mas d'onde proviemos; os successos historicos aí têm a
sua nota accentuada; os nomes que figuram nas lendas genealogicas e
nos feitos de armas no periodo da constituição da nossa nacionalidade
aí se encontram assignando os mais saborosos cantares consagrados ás
damas da côrte, que serviam. Finalmente, ali está o documento mais
vasto em que a lingua portugueza se manifesta no seu esforço para de
inconsistente dialecto romanico se tornar uma lingua escripta com uma
grammatica fixa. Um livro assim, onde se acha representado o melhor da
nossa antiga poesia durante os seculos XIII e XIV, é a joia de uma
bibliotheca. Como nos mostraremos gratos ao estrangeiro que assim vem
augmentar os nossos thezouros historicos e restituir-nos o fio perdido
da nossa tradição nacional? Estudando-o.
A primeira questão que o Cancioneiro portuguez do Vaticano sugere é
determinar as suas relações com os antigos cancioneiros provençaes
portuguezes em grande parte perdidos; esta circumstancia complica o
problema critico, e por isso importa bem determinar aproximadamente o
numero d'essos cancioneiros para se fazer o processo de filiação. Tal
é o intuito d'este nosso primeiro estudo, bastante restricto, por que
determinar o valor historico do Cancioneiro pelas correntes
litterarias n'elle representadas, pela allusão aos grandes successos,
pelo uso de dadas formas poeticas, pelas personalidades dos principaes
trovadores e pelo estado da lingua portugueza, é uma exploração de tal
forma vasta, que qualquer d'estas questões excede as proporções de uma
noticia. Começamos pela critica externa do Cancioneiro, enumerando
todos os cancioneiros portuguezes dos seculos XIII e XIV que
contribuiram para a sua formação, procurando ao mesmo tempo o nexo que
existiria entre elles, e pelas divergencias de texto quaes as
collecções que se perderam sem chegarem a ser conhecidas.
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